Do livro: O homem que calculava
O leão, o tigre e o chacal
abandonaram, certa vez, a furna sombria em que viviam e saíram, em peregrinação
amistosa, a jornadear pelo mundo, à procura de alguma região rica em rebanhos
de tenras ovelhinhas.
Em meio de grande floresta, o
temível leão, que chefiava, naturalmente, o grupo, sentou-se, fatigado, sobre
as patas traseiras, e erguendo a cabeça enorme soltou um rugido tão forte que
fez tremer as árvores mais próximas.
O tigre e o chacal entreolharam-se,
assustados. Aquele rugido ameaçador com que o perigoso monarca,de juba escura e
garras invencíveis, perturbava o silêncio da mata, traduzido para uma linguagem
ao alcance dos outros animais, queria dizer, laconicamente, o seguinte: Estou
com fome.
- A vossa impaciência é
perfeitamente justificável!
- observou o chacal, dirigindo-se humildemente ao leão.
- observou o chacal, dirigindo-se humildemente ao leão.
- Asseguro-vos, entretanto, que conheço, nesta
floresta, um atalho misterioso, do qual as brutas feras jamais tiveram notícia.
Por ele poderíamos chegar, com facilidade, a um pequeno povoado, quase em ruínas, onde a caça é
abundante, fácil, ao alcance das garras, e isenta de qualquer perigo!
- Vamos, chacal!
- Acudiu, de pronto, o leão.
- Acudiu, de pronto, o leão.
- Quero conhecer e admirar esse recanto
adorável!
Ao cair da tarde, guiados pelo
chacal, chegaram os viajantes ao alto de um monte, não muito elevado, donde se
descortinava uma pequena e verdejante planície.
No meio dessa planície
achavam-se, descuidados, alheios ao perigo que os ameaçava, três pacíficos
animais: uma ovelha, um porco e um coelho. Ao avistar a presa fácil e certa, o
leão sacudiu a juba abundante num movimento de incontida satisfação. E com os
olhos brilhantes de gula, voltou-se para o tigre e rosnou, em tom possivelmente
amistoso:
- Ó tigre admirável! Vejo ali
três belos e saborosos petiscos: uma ovelha, um porco e um coelho! Tu, que és
vivo e esperto, deves saber, com talento, dividir 3 por 3. Faze, pois, com
justiça e eqüidade, essa operação fraternal: dividir 3 caças por 3 caçadores!
Lisonjeado com semelhante
convite, o vaidoso tigre depois de exprimir com uivos de falsa modéstia a sua
incompetência e o seu desvalor, assim respondeu:
- A divisão que generosamente
acabais de propor, ó rei, é muito simples e fazer-se com relativa facilidade. A
ovelha, que é o maior dos três petiscos, o mais saboroso e, sem dúvida, capaz
de saciar a fome de um bando de leões do deserto, cabe-vos, de pleno direito. A
ovelha será vossa exclusivamente vossa!
Aquele porquinho magro, sujo e
despiciendo, que não vale uma perna da bela ovelha, ficará para mim, que sou
modesto e com bem pouco me contento. E, finalmente, aquele minúsculo e
desprezível coelho, de reduzidas carnes, indigno do paladar apurado de um rei,
tocará ao nosso companheiro chacal, como recompensa pela valiosa indicação que
há pouco nos proporcionou.
- Estúpido! Egoísta!
- Rugiu o pavoroso leão, tomado de fúria
indescritível.
- Quem te ensinou a fazer
divisões dessa maneira, imbecil? Onde já viste uma partilha de 3 por 3 ser
resolvida desse modo?
E, erguendo a pesadíssima pata,
descarregou na cabeça do desprevenido tigre tão violenta pancada que o atirou
morto a alguns passos de distância.
Em seguida, voltando-se para o
chacal, que assistira, estarrecido, àquele trágico desfecho da divisão de 3 por
3, assim falou:
- Meu caro chacal! Sempre fiz da
tua inteligência o mais elevado conceito. Sei que és o mais engenhoso e
esclarecido dos animais da floresta, e outro não conheço que possa levar-te a
melhor na habilidade com que sabes resolver os mais inextricáveis problemas.
Encarrego-te, pois, de fazer essa divisão simples e banal, que o estúpido do
tigre (corno acabaste de ver) não soube efetuar satisfatoriamente. Estas vendo,
amigo chacal, aqueles três apetitosos animais, a ovelha, o porco e o coelho?
Somos dois, e os animais apetitosos são três. Pois bem: vais dividir os três
por dois! Vamos: faze logo os cálculos, pois preciso saber qual é o quociente
exato que a mim cabe!
- Não passo de humilde e rude
servo de Vossa Majestade - ganiu o chacal, em tom humílimo de
respeito.Cumpre-me, pois, obedecer cegamente à ordem que acabo de receber. Vou,
como se fora um sábio geômetra, dividir aqueles três animais por nós dois.
Trata-se de uma simples divisão de 3 por 2! A divisão matematicamente certa e
justa é a seguinte: a admirável ovelha, manjar digno de um soberano, cabe aos
vossos reais caninos, pois é indiscutível que sois o rei dos animais; o belo
bacorinho, do qual estou ouvindo os harmoniosos grunhidos, deve caber também ao
vosso real paladar, visto dizerem os entendidos que a carne de porco dá mais
força e energia aos leões; e o saltitante coelho, com suas longas orelhas, deve
ser, também, por vós saboreado a título de sobremesa, já que aos reis, por lei
tradicional entre os povos, cabem sempre, como complemento dos opíparos
banquetes, os manjares finos e delicados.
- Ó incomparável chacal! -
exclamou o leão, encantado com a partilha que acabava de apreciar.
- Como são harmoniosas e sábias
as tuas palavras! Quem te ensinou esse artifício maravilhoso de dividir, com
tanta perfeição e acerto, 3 por 2?
- A patada com que vossa justiça
puniu, há pouco, o tigre arrogante e ambicioso, ensinou-me a dividir, com
segurança, 3 por 2, quando, desses dois, um é leão, outro é chacal! Na
matemática do mais forte, penso eu, o quociente é sempre exato, e ao mais
fraco, depois da divisão, nem o resto deve caber!
E, desse dia em diante, sugerindo
sempre divisões dessa ordem, inspirada na mais torpe sabujice, julgou o
astucioso chacal que poderia viver tranqüilo a sua vida de bajulador, a
regalar-se com os sobejos que deixava o sanguinário leão.
Enganou-se.
Decorridas duas ou três semanas, o leão, irritado, faminto, desconfiou do servilismo do chacal e deu-lhe violenta patada, matando-o cruelmente.
Decorridas duas ou três semanas, o leão, irritado, faminto, desconfiou do servilismo do chacal e deu-lhe violenta patada, matando-o cruelmente.
Cabe aqui advertir.
É que a verdade deve ser dita,
redita, e quarenta vezes repetida:
- O castigo está mais perto do
pecador do que as pálpebras estão dos olhos!
- Encerra essa fábula, que
acabamos de ouvir, profunda lição de moral. Os vis bajuladores que rastejam nas
cortes, sobre os tapetes dos poderosos, podem, a princípio, tirar algum
proveito da subserviência, mas, no fim, são e serão sempre castigados!

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