3.11.13

A multiplicação famosa



Do Livro: O homem que calculava

Um poderoso rei, que dominava a Pérsia e as vastas planícies do Irã, ouviu certo dervixe dizer que o verdadeiro sábio devia conhecer, com absoluta perfeição, a parte espiritual e a parte material da vida. Chamava-se Astor esse monarca,que era apelidado “O Sereno”.
Que fez Astor, o rei? Vale a pena recordar a forma pela qual procedeu o poderoso monarca. Mandou chamar os três maiores sábios da Pérsia, entregou a cada um deles 2 dinares de prata e disse-lhes:
- Há neste palácio três salas iguais, completamente vazias. Ficará, cada um de vós, encarregado de encher uma das salas, não podendo, entretanto, despender nessa tarefa quantia superior à que acabo de confiar a cada um.
O problema era realmente difícil. Cada sábio devia encher uma sala vazia, gastando apenas a insignificante quantia de 2 dinares.
Partiram os sábios a fim de cumprir a missão de que haviam sido encarregados pelo caprichoso rei Astor.
Horas depois, regressaram à sala do trono. O monarca, interessado pela solução do enigma, interrogou-os.
O primeiro, ao ser interrogado, assim falou:
- Senhor! Gastei 2 dinares, mas a sala que me coube ficou completamente cheia. A minha solução foi muito prática. Comprei vários sacos de feno e com eles enchi o aposento do chão até o teto.
- Muito bem! - exclamou o rei Astor, o Sereno.
- A vossa solução, simples e rápida, foi realmente muito bem imaginada. Conheceis, a meu ver, a “parte material da vida”, e sob esse aspecto haveis de encarar todos os problemas que o homem deve enfrentar na face da terra.
A seguir, o segundo sábio, depois de saudar o rei, disse com certa ênfase:
- No desempenho da tarefa que me foi cometida, gastei apenas meio dinar. Quero explicar como procedi: Comprei uma vela e acendi-a no meio da sala vazia, Agora ó Rei, podeis observá-la. Está cheia, inteiramente cheia de luz.
- Bravos! - concordou o monarca.
- Descobriste uma solução brilhante para o caso! A luz simboliza a parte espiritual da vida. O vosso espírito acha-se, pelo que me é dado concluir, propenso a encarar todos os problemas da existência do ponto de vista espiritual.
Chegou, afinal, ao terceiro sábio, a vez de falar. Eis como foi resolvida por ele a singular questão:
- Pensei, a princípio, ó Rei dos Quatro Cantos do Mundo, em deixar a sala entregue aos meus cuidados exatamente como se achava. Era fácil ver que a aludida sala, embora fechada, não se encontrava vazia. Apresentava-se (é evidente) cheia de ar e de trevas. Não quis, porém, ficar na cômoda indolência enquanto os meus dois colegas agiam com tanta inteligência e habilidade.
Resolvi agir também. Tomei, pois, de um punhado de feno da primeira sala, queimei esse feno na vela que se achava na outra, e com a fumaça que se desprendia enchi inteiramente a terceira sala. Será inútil acrescentar que não gastei a menor parcela da quantia que me foi entregue. Como podeis verificar, a sala que me coube está cheia de fumaça.
- Admirável! - exclamou o rei Astor.
- Sois o maior sábio da Pérsia e talvez do mundo. Sabeis unir, com judiciosa habilidade, o material ao espiritual para atingir a perfeição.
Neste ponto, o sábio toledano dava por finda a sua narrativa.
Voltando-se, então, para Beremiz, assim falou, sorrindo com certo ar de brandura:
- É meu desejo, ó calculista, verificar se, à semelhança do terceiro sábio da lenda, sois capaz de unir o material ao espiritual, e chegar a resolver não só os problemas humanos, como também as questões transcendentes. A minha pergunta é, portanto, a seguinte:
“Qual é a multiplicação famosa, apontada na história, multiplicação que todos os homens cultos conhecem, e na qual só figura um fator?
Essa inopinada pergunta surpreendeu,com sobeja razão, os ilustres muçulmanos. Alguns não disfarçaram pequeno gestos de desagrado e impaciência. Um cádi obeso, ricamente trajado, que se achava a meu lado, resmungou, irritado, desabridamente:
- Isso não tem sentido! É disparate!
Beremiz ficou largo tempo cogitando. Depois, logo que sentiu coordenadas as idéias, respondeu:
- A única multiplicação famosa, com  um único fator, citada pelos historiadores, e que todos os homens cultos conhecem, é a multiplicação dos pães, feita por Jesus, filho de Maria. Nessa multiplicação só figura um fator: o poder milagroso da vontade de Deus.
-. Muito bem respondido - declarou o toledano. -
Certíssimo! É a resposta mais perfeita e completa que já ouvi até hoje!

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